Zuzu Angel: um dos maiores nomes da moda brasileira

Considerada uma das maiores estilistas da história do Brasil e com grande relevância internacional, Zuzu Angel, nascida Zuleika de Souza Netto (1921-1976) na cidade de Curvelo (MG), foi responsável por incríveis criações que enalteceram a cultura brasileira ao redor do mundo. Deixando as tendências europeias de lado — mais seguidas no país até então —, Zuzu Angel revolucionou a moda com peças que tinham como inspiração as riquezas naturais e culturais do Brasil a partir da década de 1950, quando iniciou sua carreira de estilista.

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Suas criações buscavam valorizar o corpo de suas clientes, com roupas de bom caimento e que refletiam as tendências populares. Generosos em corte e ajuste, utilizando lindos corpetes ou cinturas baixas, seus vestidos tinham mangas esvoaçantes em tecidos transparentes, além das belíssimas saias rodadas. Com muita criatividade e energia, Zuzu Angel transformou a emergente indústria de moda brasileira, com a utilização de elementos únicos em suas criações.

Por exemplo, a tradicional renda brasileira de crochê foi incorporada a seus desenhos, com tingimentos para combinar com sedas estampadas e utilizada em vestidos de verão. Zuzu também trouxe para si a responsabilidade de trazer um pouco de cada região em suas peças, com muita renda nordestina, seda, fitas, cores e diversas influências do folclore de cada lugar do Brasil. A reutilização de materiais e a sustentabilidade também são marcas registradas do trabalho da estilista, que transformou materiais têxteis de uso doméstico como a chita em parte das roupas utilizadas pelas mulheres pertencentes à elite brasileira.

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Seu estilo único nas criações e peças começou a chamar a atenção da elite carioca no início da década de 1960, atraindo grande sucesso nacional e internacional em poucos anos: em 1966, Zuzu realizou seus primeiros desfiles, no 2º Salão de Moda da Feira Brasileira do Atlântico e no Clube de Decoradores do Copacabana Palace. Já em 1968, estreou seus desfiles nos Estados Unidos, em um evento realizado no estado do Texas.

Com a grande procura por suas roupas, Zuzu Angel alternava entre produções sob medida e o prêt-à-porter em sua boutique no Rio de Janeiro, localizada no bairro do Leblon. Porém, em 1971, no auge de sua carreira como estilista, o assassinato de seu filho mais velho Stuart Angel Jones, morto pela ditadura militar, transformou para sempre a vida de Zuzu Angel, que passou a utilizar suas criações e peças como símbolo de uma luta que ia muito além da busca pelo sucesso.

A moda como forma de protesto

Estudante de economia e membro de um movimento revolucionário contra a ditadura militar, Stuart Angel Jones foi preso, torturado e morto sob o poder do regime, que negou à família o paradeiro e o acesso ao corpo. Como forma de protesto, Zuzu Angel passou a utilizar a moda para mobilizar a mídia e as autoridades estrangeiras sobre o que estava acontecendo no Brasil com a repressão militar.

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Entre diversas intervenções e protestos, Zuzu realizou, no mesmo ano da morte de Stuart, um desfile-protesto em Nova York, para lançar a coleção International Dateline Collection III – Holiday and Resort, marcado por uma apresentação repleta de símbolos e mensagens contra a ditadura: figuras coloridas de casas, árvores e pássaros, em contraste com bordados de anjos mortos, canhões e pássaros em gaiolas. Ao final do desfile, Zuzu surgiu vestida de preto, com crucifixos na cintura e um anjo — que se tornaria sua principal marca na busca por justiça — pendurado em seu pescoço.

Em 1976, Zuzu Angel perdeu a vida em um acidente automobilístico no Rio de Janeiro, na saída de um túnel que foi posteriormente batizado com seu nome. A princípio, divulgou-se que Zuzu poderia ter ingerido álcool, cochilado ao volante ou sofrido um infarto, hipóteses para o acidente fatal. Porém, as investigações da Justiça brasileira concluíram que a estilista foi vítima de uma emboscada do regime militar, feita por agentes que utilizaram outro veículo para jogar o carro de Zuzu para fora da pista.

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Novas certidões de óbito foram emitidas em 2019 para Zuzu e também para seu filho Stuart, onde consta a causa mortis de mãe e filho como “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro”. Mulher de força e garra, Zuzu Angel marcou para sempre a história da moda brasileira com suas criações ímpares e seu pioneirismo, mas também ficará eternizada como um grande símbolo da luta por justiça e liberdade.

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